17 de dezembro de 2014

Roghi. Anna Deflorian (Canicola)

Quais são as expectativas mínimas quando nos deparamos com um livro de banda desenhada? Esperar uma narrativa? Encontrar uma qualquer linha que se organize ao longo das supostas imagens múltiplas que se apresentarão no objecto determinado – livro, revista, etc. - ? Um qualquer tipo de prazer cognitivo, que tem em conta igualmente certos sentidos físicos e de sensações? Afectos específicos associados a memórias de leituras anteriores, “ares de família”? E o que sucede quando esses ares de família falham ou são continuamente desviados? (Mais)

16 de dezembro de 2014

"O corpo dos negros amarelos", artigo em Este corpo que me ocupa (Buala)

Tendo já colaborado em ocasiões passadas com a plataforma Buala, voltamos agora a um novo episódio, em contornos ligeiramente diferentes. (Mais)

15 de dezembro de 2014

Deixa-me entrar. Joana Afonso (Polvo)

Alberto é condutor de um camião de recolha de lixo em Lisboa. Vive sozinho, pobremente, acumulando caixas de papelão no seu abetesgado quarto, cheios de tudo o que tem salvaguardado desde a sua infância, tal como uma bola de trapos. A senhoria, dona Fernanda, vai colocando perguntas estratégicas, que vão abrindo a sua vida de concha fechada. Mas Alberto é um homem de poucas palavras. Mas não de poucas memórias.(Mais) 

14 de dezembro de 2014

Ardalén, de Miguelanxo Prado no aCalopsia.

Tendo recebido uma cópia deste livro da parte da Asa através do editor do site aCalopsia, ficara prometida que a crítica que dele faríamos seria publicada nesse mesmo local. O nosso interesse pela obra de M. Prado tem sido algo intermitente, e não tanto de seguidores fiéis, por encontrar neste autor prestações muitos desiguais entre si. 

Se por um lado este imenso volume é apresentado como uma grande obra no percurso do autor, e apenas uma leitura atenta permita responder se se trata de uma obra maior, ela pede, ainda assim,por um esforço particular em compreender a sua natureza.

Ficando os agradecimentos à editora e a B. Campos, o nosso texto pode ser acedido directamente aqui.

13 de dezembro de 2014

Veil. Greg Rucka e Toni Fejzulah (Dark Horse)

Uma jovem mulher emerge de uma estação abandonada de metro numa qualquer cidade dos Estados Unidos. Está nua e parece falar em estranhos fraseados rimados, como se estivesse presa a uma leitura de Alice no País das Maravilhas. Desperta imediatamente a concupiscência de alguns transeuntes, inclusive membros do que parece ser um gangue local, provavelmente envolvidos em negócios como a droga e a prostituição, típicos atalhos de moralidade. A estranheza está presente na narrativa desde o início, e as suas primeiras páginas aumentarão o grau dessa estranheza: a mulher é “salva” por um dos membros do gangue, bem-intencionado, mas depois é ela quem o salvará da violência inevitável, e nesse acto revela um mundo paralelo e mágico. Veil cria desde logo um quadro de referências dignos de um Taxi Driver aberto à fantasia. (Mais)

11 de dezembro de 2014

Crítica a Comics and the Senses na imageandnarrative.

Serve o presente post apenas para divulgar a resenha crítica em língua inglesa de Comics and the Senses, de Ian Hague, de que havíamos falado aqui. Foi publicada, como prometido, na imageandnarrative.be, e pode-se encontrar directamente neste outro aqui.

10 de dezembro de 2014

Que luz estarias a ler? João Pedro Mésseder e Ana Biscaia (Xerefé Edições)

Serve o presente recado para dar conta da edição de um pequeno livro, fruto de vários factores convergentes. Ana Biscaia sentiu-se movida com as imagens de uma rapariga tentando salvar livros, possivelmente da sua escola, na faixa de Gaza, quando dos bombardeamentos israelitas do conflito do verão de 2014. Criou assim um ciclo de imagens que partilhavam essas, digamos, preocupação, solidariedade, e princípio de resposta. (Mais)

Les trésors de Tintin. Dominique Maricq (Casterman/Moulinsart)


Este livro-objecto segue à risca a metáfora pretendida pelo título, e pode ser considerada como uma espécie de “arca de tesouros”. Fisicamente, é uma caixa no interior da qual se encontra um livro de capa cartonada e um envelope que carrega toda a espécie de documentos em papel em fac-símile (parece existir uma outra edição ligeiramente diferente na distribuição). Este é um objecto, portanto, que tanto servirá a estudiosos da banda desenhada em geral, como da franco-belga em particular, mas também, como é fácil de imaginar, os tintinófilos mais completistas e os fetichistas dos livros em geral. (Mais)

9 de dezembro de 2014

Cumbe. Marcelo D’Salete (Veneta)

Há relativamente pouco tempo, deparámo-nos com um livro infantil que discorria sobre a história de Portugal. Numa frase, explicava-se como a conquista do norte de Ceuta e outras das políticas expansionistas admitiriam o alcance do mercado da “pimenta, canela, escravos, marfim e outros produtos”. O que constitui matéria de discussão, e que deveria ser chocante, é que, mesmo que do ponto e vista estritamente economicista – o qual tem tomado conta incrementalmente de mais áreas da vida humana - a palavra “escravos” não apenas se encontre sem quaisquer qualificações naquele arrolar de “produtos” como numa posição da ordem sem qualquer particularidade. Como se a desculpa de “o tempo histórico” fosse desculpa para eliminar as diferenças entre especiarias, derivados vegetais, minerais raros e… seres humanos. (Mais) 

5 de dezembro de 2014

Sepulturas dos pais. David Soares e André Coelho (Kingpin Books)

Até certa medida, podemos afirmar que Sepulturas dos pais é uma espécie de retorno, ainda que talvez apenas a um nível superficial, aos primeiros livros de banda desenhada de David Soares, quando ele próprio os desenhava. Sem descurar os anteriores livros em colaboração com outros desenhadores, a leitura deste volume recorda aquilo que, já em 2002, escrevíamos sobre os livros então disponíveis de Soares, sobre um “chiaro-scuro [sic!] que assume uma vitalidade ao serviço do fantástico e do terror” (flirt no. 26). O percurso e “personalidade gráfica” de André Coelho é aquela que mais partilha elementos com Soares-o-artista de entre os seus colaboradores, ainda que este tenha dividido o seu percurso entre uma ultra-estilização próxima de Ted McKeever (o dos anos 1990) e uma figuração mais redonda. Porém, mesmo que Coelho seja um artista mais moldado e pictural, também Soares explorava os “excessos” materiais – da tinta, das correcções, de letras e símbolos não-diegéticos, etc. - para aumentar a textura visual dos seus livros, aspecto que Coelho leva a um grau mais elevado. Não aqui, porém, onde antes opera sobretudo em nome de uma paradoxal “clareza”. (Mais)